Falas de autosuficiência
(e aí começa a angústia
de o homem não ser deus),
falas, mas tens a aparência
do cansaço de um rio
correndo com indolência.
És a voz da autosuficiência
hora a hora vivida
com raiva, medo... calma
como uma deusa discorrendo
sobre... o aumento do custo de vida
ou sobre a imortalidade da alma.
Histórias curtas, pequenos comentários, pequenos poemas - meios de libertar "pressão", que passa a ser... "EX-PRESSÃO".
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18 de janeiro de 2011
16 de janeiro de 2011
CITAÇÃO I
"Os humoristas são meninos que, atravessando os quartos escuros, cantam para se darem coragem."
Pitigrilli
"A decadência do paradoxo"
Pitigrilli
"A decadência do paradoxo"
15 de janeiro de 2011
APARECIDA
À noite eu adorava frequentar a zona das chegadas nos aeroportos das cidades onde vivi. Tomava uma atitude expectante - de pé, braços cruzados e, por vezes, roendo as unhas. Ou sentado, palmas das mãos juntas e apertadas entre os joelhos, olhar fixo nas portas de saída dos passageiros, por vezes desviado para olhar o "placard" das chegadas. Ou passeando de um lado para outro, de mãos nos bolsos. Esperando a chegada de... ninguém.
Observava, também, as pessoas que esperavam, os seus tiques, o nervosismo, a ansiedade. Por vezes tristeza, olheiras fundas, barba por fazer, cabelo pouco cuidado. Alguém que era esperado talvez para um funeral. Os que chegavam vinham sós, aos casais, em grupos, com amigos, familiares ou em numerosos grupos de afinidade desportiva. Havia os que chegavam furtivos, que corriam apressados, zuiguezagueando entre pessoas e malas, a caminho das portas da rua, das praças de táxi. Outros iam saindo assim como em camadas, mais ou menos em concordância com os países de origem, tendo em conta os horários das chegadas.
Havia quem chegasse caminhando como se pisasse uma "passerelle", julgando-se observada e admirada na sua beleza, elegância, exuberânca ou excentricidade, provinda de outros mundos ou de outra galáxia.
Havia tímidos e introvertidos, medrosos. E aqueles que exibiam uma profusão de bagagem completamente desorganizada, que ameaçava desfazer-se a qualquer momento.
Havia beijos fugidios que escondiam e adiavam paixões contidas, que, algum tempo, mais tarde, explodiriam na intimidade ansiada. Outras vezes havia beijos que rebentavam em sofreguidão de corpos amachucados um contra o outro, porque... não havia ali mais ninguém - sucção de lábios, faces e pescoços, assim como quem quem quer sugar o outro para as suas entranhas.
Choros também. Transbordando em lágrimas de alegria ou de dor, afogando as ausências.
Vinham, por vezes, grupos de orientais, muito ordeiros, disciplinados, curiosos de tudo, olhando continuamente em redor. Contidos, ciciado aos ouvidos uns dos outros, olhando as decorações, os tectos, as lojas - as excentricidades ocidentais...
Também grupos de negros, que explodiam em abraços e palmadas de mão na mão, berrando frases em línguas africanas de sons abertos, enquanto tentavam equilibrar crianças, malões e grandes sacos em cima dos carros de bagagem.
Crianças, muitas criaças. Umas adormecidas, outras em correrias, gritos e gargalhadas. Outras contidas, chorosas, tristes, estranhas frente às faces que as beijavam sofregamente - faces que nunca tinham visto.
Tudo eu via numa colheita de vida e diversidade. E fazendo de conta que esperava, esperava, esperava a chegada de... ninguém.
Passavam rios de gente. Passavam, por vezes, rostos familiares. Talvez do tempo da adolescência ou dos vinte anos em... qualquer lugar. Rostos agora mais vincados pelo tempo e pelas vicissitudes da vida. Os nossos olhares cruzavam-se, interrogativos e nada mais.
Passavam, também, figuras públicas, actores, políticos, que, habitualmente, olhavam por cima das cabeças dos outros, evitando olhares e procurando o motorista.
Se surgia, ainda longe, um rosto dos meus conhecimentos, evitava o encontro, escondia-me atrás dos óculos escuros e aproveitava para me afastar e procurar outro palco próximo - outro teatro da vida que, afinal, repetia mais ou menos as mesmas cenas, embora com outros actores.
E continuava a esperar... ninguém.
Voltava para casa com os olhos e ouvidos cheios dos sentimentos, cenas, expressões faciais, palavras, gritos. Só tarde conseguia adormecer. Depois sonhava com tudo aquilo, que ia desfilando, fazendo misturas das situações observadas, assim como quem monta e remonta um filme.
A área das partidas nunca me seduziu. Talvez porque tudo é muito monótono, com filas imensas e, por vezes, protestos e discussões.
Comecei a pensar que as visitas aos aeroportos, na área das chegadas, devia ter uma explicação qualquer. Cheguei a pensar consultar um psiquiatra.
Foi numa dessas visitas (a última) que uma mulher, ainda jovem, correu para mim, tomou-me pelas mãos e, olhando-me nos olhos, exclamou:
- Oh meu querido!
Agarrou a minha cabeça com ambas as mãos e beijou-me ternamente na boca. Depois agarrou com a mão esquerda o meu braço direito e perguntou:
- Vamos?
Estranhei não trazer qualquer peça de bagagem. (- É puta, pensei). Mas aquela cara não me era estranha. Então, ela disse:
- Desculpa. Não me lembro do teu nome.
(- É puta - conclui). E perguntei:
- De onde veio você?
- De lado nenhum. Estava à tua espera.
Fomos para minha casa. Passei a chamar-lhe Aparecida.
Foi há mais de dois anos e ainda está cá em casa.
Nunca mais frequentei as chegadas dos aeroportos.
Estou a pensar, muito seriamente, passar à zona das partidas.
Observava, também, as pessoas que esperavam, os seus tiques, o nervosismo, a ansiedade. Por vezes tristeza, olheiras fundas, barba por fazer, cabelo pouco cuidado. Alguém que era esperado talvez para um funeral. Os que chegavam vinham sós, aos casais, em grupos, com amigos, familiares ou em numerosos grupos de afinidade desportiva. Havia os que chegavam furtivos, que corriam apressados, zuiguezagueando entre pessoas e malas, a caminho das portas da rua, das praças de táxi. Outros iam saindo assim como em camadas, mais ou menos em concordância com os países de origem, tendo em conta os horários das chegadas.
Havia quem chegasse caminhando como se pisasse uma "passerelle", julgando-se observada e admirada na sua beleza, elegância, exuberânca ou excentricidade, provinda de outros mundos ou de outra galáxia.
Havia tímidos e introvertidos, medrosos. E aqueles que exibiam uma profusão de bagagem completamente desorganizada, que ameaçava desfazer-se a qualquer momento.
Havia beijos fugidios que escondiam e adiavam paixões contidas, que, algum tempo, mais tarde, explodiriam na intimidade ansiada. Outras vezes havia beijos que rebentavam em sofreguidão de corpos amachucados um contra o outro, porque... não havia ali mais ninguém - sucção de lábios, faces e pescoços, assim como quem quem quer sugar o outro para as suas entranhas.
Choros também. Transbordando em lágrimas de alegria ou de dor, afogando as ausências.
Vinham, por vezes, grupos de orientais, muito ordeiros, disciplinados, curiosos de tudo, olhando continuamente em redor. Contidos, ciciado aos ouvidos uns dos outros, olhando as decorações, os tectos, as lojas - as excentricidades ocidentais...
Também grupos de negros, que explodiam em abraços e palmadas de mão na mão, berrando frases em línguas africanas de sons abertos, enquanto tentavam equilibrar crianças, malões e grandes sacos em cima dos carros de bagagem.
Crianças, muitas criaças. Umas adormecidas, outras em correrias, gritos e gargalhadas. Outras contidas, chorosas, tristes, estranhas frente às faces que as beijavam sofregamente - faces que nunca tinham visto.
Tudo eu via numa colheita de vida e diversidade. E fazendo de conta que esperava, esperava, esperava a chegada de... ninguém.
Passavam rios de gente. Passavam, por vezes, rostos familiares. Talvez do tempo da adolescência ou dos vinte anos em... qualquer lugar. Rostos agora mais vincados pelo tempo e pelas vicissitudes da vida. Os nossos olhares cruzavam-se, interrogativos e nada mais.
Passavam, também, figuras públicas, actores, políticos, que, habitualmente, olhavam por cima das cabeças dos outros, evitando olhares e procurando o motorista.
Se surgia, ainda longe, um rosto dos meus conhecimentos, evitava o encontro, escondia-me atrás dos óculos escuros e aproveitava para me afastar e procurar outro palco próximo - outro teatro da vida que, afinal, repetia mais ou menos as mesmas cenas, embora com outros actores.
E continuava a esperar... ninguém.
Voltava para casa com os olhos e ouvidos cheios dos sentimentos, cenas, expressões faciais, palavras, gritos. Só tarde conseguia adormecer. Depois sonhava com tudo aquilo, que ia desfilando, fazendo misturas das situações observadas, assim como quem monta e remonta um filme.
A área das partidas nunca me seduziu. Talvez porque tudo é muito monótono, com filas imensas e, por vezes, protestos e discussões.
Comecei a pensar que as visitas aos aeroportos, na área das chegadas, devia ter uma explicação qualquer. Cheguei a pensar consultar um psiquiatra.
Foi numa dessas visitas (a última) que uma mulher, ainda jovem, correu para mim, tomou-me pelas mãos e, olhando-me nos olhos, exclamou:
- Oh meu querido!
Agarrou a minha cabeça com ambas as mãos e beijou-me ternamente na boca. Depois agarrou com a mão esquerda o meu braço direito e perguntou:
- Vamos?
Estranhei não trazer qualquer peça de bagagem. (- É puta, pensei). Mas aquela cara não me era estranha. Então, ela disse:
- Desculpa. Não me lembro do teu nome.
(- É puta - conclui). E perguntei:
- De onde veio você?
- De lado nenhum. Estava à tua espera.
Fomos para minha casa. Passei a chamar-lhe Aparecida.
Foi há mais de dois anos e ainda está cá em casa.
Nunca mais frequentei as chegadas dos aeroportos.
Estou a pensar, muito seriamente, passar à zona das partidas.
11 de janeiro de 2011
LENGA-LEGA ou ...CEGARREGA
...................................................................................................
Era uma velha
que tinha um candidato
e debaixo da cama o tinha
e o candidato falava
e a velha dizia:
- Maldigo o teu falar
maldigo o teu bulir
que não me deixa dormir
nem tão pouco descançar.
Era uma velha
que tinha um candidato (...)
...........................................................................................
Era uma velha
que tinha um candidato
e debaixo da cama o tinha
e o candidato falava
e a velha dizia:
- Maldigo o teu falar
maldigo o teu bulir
que não me deixa dormir
nem tão pouco descançar.
Era uma velha
que tinha um candidato (...)
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9 de janeiro de 2011
OS SEUS SAPATOS
(Publicidade)
O quê?! É você que aperta os seus próprios sapatos? Você desce assim tão baixo?
Explique lá porque é que, um homem da sua condição e nascimento, se dobra assim para uma coisa tão mesquinha, tão baixa?
A espinha de um homem deve manter-se sempre em posição erecta! É uma questão de dignidade, de respeito por si mesmo.
O que pensarão ou dirão os seus amigos e vizinhos, os seus próximos, ao observá-lo em acto tão pouco dignificante?
Colocar-se, assim, ao serviço de uns objectos que estão ao nível do chão, que ficam tão próximos ou (sabe-se lá!) se envolvem com o que de mais baixo existe à face da terra - os dejectos! Dejectos de cão, de cavalo, de vaca, de burro... de burro, senhor, de burro! A alimária mais estúpida à face da terra!
Levante-se, homem, levante-se! Abandone essa postura tão baixa, tão degradante! Tenha dignidade! Tenha respeito por si mesmo!
Além disso pode estar alguém a colher imagens desse acto sub-humano, talvez através de máquina de filmar digital. Ficarão fixadas para a posterioridade imagens em movimento de um homem da sua condição a dobrar a coluna, com ar servil, ao nível do chão, colocando-se ao serviço de uns sapatos, objectos que convivem com dejectos!
Ora, meu caro senhor, Vossa Excelência ultrapassará toda essa baixeza se comprar uns sapatos topo de gama da nossa linha "EASYUSTAND", suaves, maleáveis, que são a continuidade e complemento dos seus pés. São dotados de duas peças elásticas, no lado direito e no lado esquerdo de cada sapato. SEM ATACADORES, COMO É ÓBVIO!
Assim poderá Vossa Excelência calçar os seus sapatos, mantendo sempre uma posição erecta, própria da condição de homem superior, olhando os sapatos bem de cima. NÃO SE COLOCANDO AO SERVIÇO DOS MESMOS.
O quê?! É você que aperta os seus próprios sapatos? Você desce assim tão baixo?
Explique lá porque é que, um homem da sua condição e nascimento, se dobra assim para uma coisa tão mesquinha, tão baixa?
A espinha de um homem deve manter-se sempre em posição erecta! É uma questão de dignidade, de respeito por si mesmo.
O que pensarão ou dirão os seus amigos e vizinhos, os seus próximos, ao observá-lo em acto tão pouco dignificante?
Colocar-se, assim, ao serviço de uns objectos que estão ao nível do chão, que ficam tão próximos ou (sabe-se lá!) se envolvem com o que de mais baixo existe à face da terra - os dejectos! Dejectos de cão, de cavalo, de vaca, de burro... de burro, senhor, de burro! A alimária mais estúpida à face da terra!
Levante-se, homem, levante-se! Abandone essa postura tão baixa, tão degradante! Tenha dignidade! Tenha respeito por si mesmo!
Além disso pode estar alguém a colher imagens desse acto sub-humano, talvez através de máquina de filmar digital. Ficarão fixadas para a posterioridade imagens em movimento de um homem da sua condição a dobrar a coluna, com ar servil, ao nível do chão, colocando-se ao serviço de uns sapatos, objectos que convivem com dejectos!
Ora, meu caro senhor, Vossa Excelência ultrapassará toda essa baixeza se comprar uns sapatos topo de gama da nossa linha "EASYUSTAND", suaves, maleáveis, que são a continuidade e complemento dos seus pés. São dotados de duas peças elásticas, no lado direito e no lado esquerdo de cada sapato. SEM ATACADORES, COMO É ÓBVIO!
Assim poderá Vossa Excelência calçar os seus sapatos, mantendo sempre uma posição erecta, própria da condição de homem superior, olhando os sapatos bem de cima. NÃO SE COLOCANDO AO SERVIÇO DOS MESMOS.
8 de janeiro de 2011
6 de janeiro de 2011
ISCO
Eram quase três horas da madrugada quando o Afonso entrou em casa já um pouco turvado pelo álcool e pelo sono. A manobra para parquear o carro no espaço exíguo da garagem tinha sido muito difícil.
Entrou em casa. Fechou a porta e encostou-se na parede da entrada, com os braços pendentes e a cabeça baixa. Sentia-se cansado, muito cansado, muito cansado.
"- Tenho que beber menos e dormir mais. E fazer algum exercício. Pelo menos nos fins-de-semana."
Sair só nas noites de sextas-feiras e sábados era uma seca - muita gente e demasiados cretinos por metro quadrado.
Encaminhou-se para a casa-de-banho. Olhou-se ao espelho.
Com dois dedos esticou as rugas das olheiras. Com a mão direita puxou para trás os cabelos da testa - o cabelo era cada vez menos. "- Estou a ficar velho."
Fechou os olhos e abriu-os logo a seguir. Parecia que aquela sua cara lhe era estranha. Não era ele. Era um semi-outro. Passou uma mão pela face. A barba estava já crescida. Continuou a observar-se ao espelho com uma expressão passiva, turvada, enjoada.
Abriu a boca e observou os dentes. Puxou da escova de dentes, colocou-lhe um pouco de pasta.
Quando ia começar a escovar os dentes ouviu umas gargalhadas agudas, minúsculas, irritantes. Voltou-se e viu um diabo pequenino, do tamanho de um rato, sentado na borda da banheira, que ria ria, ria, olhando-o. Reparou nos chifres minúsculos e nos pés de cabra. Irritado, atirou-lhe com a pasta de dentes, mas não conseguiu atingi-lo.
O diabinho escorregou pela banheira e fugiu pelo buraco de escoamento de água. O Afonso agarrou no tampão e tapou o buraco com violência.
Começava a escovar os dentes, quando outra gargalhada o fez voltar a olhar para a banheira. O diabinho, com o tampão pendurado de um chifre, fez uma vénia e, sempre a rir, voltou a desaparecer pelo buraco.
O Afonso ficou estático a olhar a banheira, com a escova de dentes na mão.
Retomou a lavagem e pensou:
" - Vou ter que comprar uma ratoeira e ver se consigo arranjar um pedaço de alma como isco para ver se o apanho."
Entrou em casa. Fechou a porta e encostou-se na parede da entrada, com os braços pendentes e a cabeça baixa. Sentia-se cansado, muito cansado, muito cansado.
"- Tenho que beber menos e dormir mais. E fazer algum exercício. Pelo menos nos fins-de-semana."
Sair só nas noites de sextas-feiras e sábados era uma seca - muita gente e demasiados cretinos por metro quadrado.
Encaminhou-se para a casa-de-banho. Olhou-se ao espelho.
Com dois dedos esticou as rugas das olheiras. Com a mão direita puxou para trás os cabelos da testa - o cabelo era cada vez menos. "- Estou a ficar velho."
Fechou os olhos e abriu-os logo a seguir. Parecia que aquela sua cara lhe era estranha. Não era ele. Era um semi-outro. Passou uma mão pela face. A barba estava já crescida. Continuou a observar-se ao espelho com uma expressão passiva, turvada, enjoada.
Abriu a boca e observou os dentes. Puxou da escova de dentes, colocou-lhe um pouco de pasta.
Quando ia começar a escovar os dentes ouviu umas gargalhadas agudas, minúsculas, irritantes. Voltou-se e viu um diabo pequenino, do tamanho de um rato, sentado na borda da banheira, que ria ria, ria, olhando-o. Reparou nos chifres minúsculos e nos pés de cabra. Irritado, atirou-lhe com a pasta de dentes, mas não conseguiu atingi-lo.
O diabinho escorregou pela banheira e fugiu pelo buraco de escoamento de água. O Afonso agarrou no tampão e tapou o buraco com violência.
Começava a escovar os dentes, quando outra gargalhada o fez voltar a olhar para a banheira. O diabinho, com o tampão pendurado de um chifre, fez uma vénia e, sempre a rir, voltou a desaparecer pelo buraco.
O Afonso ficou estático a olhar a banheira, com a escova de dentes na mão.
Retomou a lavagem e pensou:
" - Vou ter que comprar uma ratoeira e ver se consigo arranjar um pedaço de alma como isco para ver se o apanho."
5 de janeiro de 2011
2 de janeiro de 2011
ABANDONO
Na rua, no chão,
à porta da casa onde foi senhor
está um pinheiro de Natal, anão.
Restam-lhe uns flocos de algodão
(hipocrisia de neve)
e muita dor.
Foram-se as luzes, os brinquedos,
os fios prateados e dourados.
Conheceu intimidade, enredos
de fingimento, adulação, calor.
Ninguém o vai repor em casa
nem recolocar no seu pinhal,
porque... já passou o Natal.
à porta da casa onde foi senhor
está um pinheiro de Natal, anão.
Restam-lhe uns flocos de algodão
(hipocrisia de neve)
e muita dor.
Foram-se as luzes, os brinquedos,
os fios prateados e dourados.
Conheceu intimidade, enredos
de fingimento, adulação, calor.
Ninguém o vai repor em casa
nem recolocar no seu pinhal,
porque... já passou o Natal.
25 de dezembro de 2010
NUMA OCASIÃO...
Assim dizia o Tio Zé: - Numa ocasião...
Soava como se fosse: - Era uma vez...
Mas o relato, a história que se seguia não era produto de imaginação, qualquer coisa ficcionada. Pelo contrário, tratava-se de acontecimentos verificados durante a sua vida. Tivera a oportunidade de os viver (para o bem ou para o mal) ou observara-os nas vidas de outros que lhe estavam próximos, física ou afectivamente.
- Numa ocasião, estava eu em Setúbal...
- Numa ocasião, o meu padrinho...
Excitava-se ou comovia-se com os relatos da sua própria juventude e, principalmente, quando envolviam recordações do padrinho.
Depois da morte do filho, que dantes era alvo de muitas recordações ("Numa ocasião o meu filho..."), deixou de contar situações engraçadas, absurdas, mesmo conflituosas, que envolviam o próprio filho.
Assim aconteceu também com a propria esposa. Em vida dela, as "ocasiões" recordadas eram contadas depois de uma breve introdução, cortada de gargalhadas, chamando-a para perto de si e dos interlocutores, para que ela confirmasse a veracidade dos factos que narrava e que os tinham envolvido a ambos.
Com a morte dela também estes acabaram.
As narrações passaram a acontecer sem grande vivacidade e, quase sempre, tristes ou trágicas. Passou a viver fixado na neta e nos bisnetos, lembrando um pouco os vários sobrinhos.
Acontece que "Numa ocasião..." o Tio Zé faleceu. Foi no dia 1 de Dezembro.
Tinha 96 anos.
***************
Algeruz (arredores de Setúbal), 25 de Dezembro de 2010
Soava como se fosse: - Era uma vez...
Mas o relato, a história que se seguia não era produto de imaginação, qualquer coisa ficcionada. Pelo contrário, tratava-se de acontecimentos verificados durante a sua vida. Tivera a oportunidade de os viver (para o bem ou para o mal) ou observara-os nas vidas de outros que lhe estavam próximos, física ou afectivamente.
- Numa ocasião, estava eu em Setúbal...
- Numa ocasião, o meu padrinho...
Excitava-se ou comovia-se com os relatos da sua própria juventude e, principalmente, quando envolviam recordações do padrinho.
Depois da morte do filho, que dantes era alvo de muitas recordações ("Numa ocasião o meu filho..."), deixou de contar situações engraçadas, absurdas, mesmo conflituosas, que envolviam o próprio filho.
Assim aconteceu também com a propria esposa. Em vida dela, as "ocasiões" recordadas eram contadas depois de uma breve introdução, cortada de gargalhadas, chamando-a para perto de si e dos interlocutores, para que ela confirmasse a veracidade dos factos que narrava e que os tinham envolvido a ambos.
Com a morte dela também estes acabaram.
As narrações passaram a acontecer sem grande vivacidade e, quase sempre, tristes ou trágicas. Passou a viver fixado na neta e nos bisnetos, lembrando um pouco os vários sobrinhos.
Acontece que "Numa ocasião..." o Tio Zé faleceu. Foi no dia 1 de Dezembro.
Tinha 96 anos.
***************
Algeruz (arredores de Setúbal), 25 de Dezembro de 2010
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