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1 de fevereiro de 2011

DAQUÉM E DO ALÉM

Acontecia durante o entardecer. Nunca quando o sol estava em força, em dia pleno.
Na primeira vez apareceu como que uma substância leitosa, flutuante, que se aproximava e afastava lentamente, adejante, com contornos indefinidos. Fluia e refluia serenamente. Por cima dessa substância, bem por cima, parecia estar outra mais escura, ovalada, que tanto era notória como logo a seguir não era nada. Só uma ilusão. Essa forma, situada mais acima, oscilava como fumo batido por uma leve aragem. Para cima e para trás. Lentamente, lentamente e logo deixava de se ver.

Isto aconteceu umas quatro ou cinco vezes, num curto período.
Era tudo de tal modo ténue e impreciso que, quando era menos aparente e, finalmente, os olhos nada retinham, o Nuno ficava preocupado com a sua sanidade mental e com sérias dúvidas sobre se tinha visto alguma coisa ou só imaginado. Medo, medo, pensando bem, não tinha tido. Aconteceu, até, que, aí pela terceira vez, estendeu a mão tentando tocar-lhe e, imediatamente, tudo se extinguiu.

Só muito tempo depois lhe reapareceu no mesmo tom leitoso, suave, esfumado, mas, agora, mais azulado na parte superior. Tomava, também, um tom acastanhado, terroso, mais abaixo, próximo do soalho. Flutuava como anteriormente e, pela primeira vez, notou que não ocultava as formas dos objectos que estavam por detrás. Surgiu uma saliência comprida, talvez um braço, azul-acastanhada, mas não se vislumbrava a mão. Havia na extremidade dessa saliência uma forma cilindrica, mais notória que tudo o resto.
Ao mesmo tempo que esse "braço" começou a subir lentamente para posição horizontal e na sua direcção, o Nuno notou que pareciam tomar forma o tronco e a cabeça - uma forma ovalada - francamente azul, mas não se notavam olhos, nariz ou boca. O braço continuava a subir lentamente, lentamente na sua direcção.
A pouco e pouco, o Nuno passou a ver sombras mais escuras na zona dos olhos e da boca, que ia aumentando de tamanho, como se estivesse a tentar falar. O braço parou na posição horizontal, apontado a ele e tão próximo, que já conseguia identificar a mão, castanha, que segurava im objecto cilindrico, de cor mais clara. A boca, francamente aberta, assim como quem quer berrar, transmitia uma ansiedade imensa. Finalmente sentiu medo, quase terror e recuou dando um salto. Imediatamente tudo desapareceu.
- Estou a ficar maluco? Ando a dormir mal...

Passaram cerca de seis meses e nada mais aconteceu.
Numa manhã, ainda o sol não nascera, estava a fazer a barba, quando apareceu, no vão da porta da casa-de-banho primeiro a forma ovalada e azul da cabeça, depois os braços e o tronco castanho claro, flutuando no ar, sem pernas, fluindo e refluindo, aproximando-se e afastando-se. Nuno parou de se barbear e ficou a observar a figura, próxima, entre medo e espanto. O braço direito da figura começou a erguer-se na sua direcção, segurando qualquer coisa na mão. A forma da cabeça aproximava-se de si e a boca, totalmente aberta, parecia gritar ou querer gritar.
Procurou manter-se imóvel, apesar de ter todos os músculos tensos e os cabelos em pé.
O braço subia, subia na direcção do seu peito. A boca, escancarada e ansiosa, estava já muito próxima, mas sem emitir qualquer som. A mão, estendida, segurava uma folha de papel, acastanhada e desfeita, mais nítida somente na parte superior, onde estava escrito, em letras maiúsculas, enormes: TESTAMENTO.
Sem conseguir controlar a voz, gritou, entre pânico e espanto:
- NÃÃÃO!!!
O ser leitoso e azul-acastanhado desapareceu imediatamente, sem deixar qualquer indício.
Nuno recuou atabalhoadamente enquanto gritava e caiu para trás como se fosse um boneco articulado, ficando sentado na sanita. Apalermado, olhava o vazio.
Depois de recomposto e ainda sentado na sanita, questionou-se:
- Serei testamenteiro?

30 de janeiro de 2011

UMBIGADA II

AI DE QUEM TENHA UM UMBIGO MAIS BRILHANTE QUE O MEU!!!

(ou que eu imagine que possa brilhar mais...)


........................

+++ Aqui termina o "CICLO DO UMBIGO" (Ufff !!!) +++

UMBIGADA I

AI DE QUEM FAÇA SOMBRA AO MEU UMBIGO!!!

(ou que eu imagine que pode vir fazer...)

29 de janeiro de 2011

POEMA À VOLTA DO UMBIGO

Eu, me, mim, migo
falo com os meus botões
centrado no meu umbigo
não falo disto e daquilo
dos problemas do mundo
falo somente de mim
das minhas recordações
pois só estou tranquilo
a pensar assim comigo
pois sou tema bem profundo.

É por isso que vos digo
não falarem de mim
é coisa que me aterra
e digo, também, em segredo
(mesmo não havendo guerra)
tenho medo:
- Eu (e o meu umbigo)
estou em perigo!

PHRASES MVRAES X

O MEU UMBIGO É O CENTRO DO UNIVERSO.

28 de janeiro de 2011

CITAÇÃO III

(Para J.B.Ws.)




"Quando os pássaros calçarem tamancos
E pelo ar voarem búfalos,
As rosas e os lírios derem bróculos,
E as rãs tocarem flauta,
O Dia de Finados passar sem lamentos,
Escura for a neve e brancas as trufas,
E os ricos colherem chicória,
Só então te esquecerei."


Rui Manuel Amaral
"Doutor Avalanche"

24 de janeiro de 2011

ELEIÇÕES

PORTUGAL tem, pela primeira vez, uma PRESIDENTA - a D. Abstenção.

HIPÉRBOLE

Ao "enésimo" dia o Algebrista criou os novos valores numéricos. Então disse:

- Crescei, somai-vos e multiplicai-vos. Ai de vós, se vos subtrairdes ou dividirdes!!!

Foi assim que conseguiu endireitar as contas e evitar o défice nas Galáxias.

23 de janeiro de 2011

FAZENDO VOTOS

Eu voto
Tu votas
Ele botou(-se)
Nós fazemos votos
Vós vota...(ais!)
Eles vo(l)tam.

.......

(O futuro é daqueles em quem deus botar).

22 de janeiro de 2011

A ALMA PENADA

A alma penada cumpre penas (apenas) por causa dos actos que um ser físico, material, palpável, praticou em vida. Ora, isso não parece correcto, pois que a pena sofrida por esse ser físico (homem, mulher...) foi somente regressar à natureza de onde viera, habitualmente através do contacto continuado com um subsolo de dois a três metros de profundidade.

Assim, a alma penada, sem culpas próprias, divaga sem rumo nem sentido, sem dia, sem noite (ou é sempre noite!), numa vida (?) sem vida - anos, séculos, milénios - sem noção de tempo e sem noção de espaço. Cansada, cansada de si, cansada de tudo, cansada do mundo (dos mundos?), cansada das penas.
Tem forma (?) e rosto quase humanos, com contornos imprecisos, desmaiados, com laivos de cinzento, leitosos.

Quando, num acaso, por razões que não entende, se cruza com um ser físico vivente (homem, cão, gato e, até, outros animais), assalta-a um desejo imenso de comunicar com ele por gestos ou palavras. Palavras que não consegue emitir em sons normais , como desejaria. São sempre roncos ou grunhidos. Os seres físicos fogem, assustadíssimos, soltando berros de terror e horror. Então, a alma penada, além da frustração que sente, é como que impulsionada por energias fortíssimas, que vêm não sabe de onde, entra num movimento rapidíssimo de rotação e de translação em volta do Nada e regressa, novamente, ao Longe, ao principo de Tudo.

O cansaço que vem acumulando multiplica-se por Infinito, pois, como é sabido, a alma penada nunca se sustem, encosta, senta ou deita. Paira sempre, flutua lentamente, em estado etéreo, impreciso, sem destino nem fim. Curvada ao peso dos tempos e das penas. Eternamente.
É-lhe impossível comunicar, procurar o calor de um ser vivo ou mesmo o frio de outra alma penada. Cumpre penas de solidão e errância. Cumpre essas penas, mas não cumprirá, talvez, só essas penas. É matéria não tratada entre nós, que não tem causado o devido interesse e que conviria ser investigada em teses de doutoramento sobre a temática "post-mortem".

Não há relatos sobre avistamento de almas penadas durante o dia (dos seres viventes, claro). Antigamente, antes da existência de iluminação eléctrica, da existência da televisão, da vida nocturna, eram vulgares os relatos sobre o avistamento de almas penadas (por vezes com luminosidade própria, embora difusa) sobre o momento de passagem de um dia para o outro dia, ou seja, sobre a meia-noite. De uma penada, a alma penada surgia na visão alumbrada e conturbada do vidente e, de outra penada, deixava de ser visível. Estes avistamentos causaram, também, fortes turbações sociais e eram relatadas, contadas e recontadas nas povoações em redor, tendo chegado até aos nossos tempos.

Podemos pensar que as almas penadas não gostarão de se aproximar do bulício social nocturno ou do excesso de luminosidade, mas, mesmo nas pequenas aldeias e nos campos, há muito tempo não são referidos avistamentos.
Assim, podemos concluir que:
a) Ou melhorou muito o comportamento dos humanos durante o percurso das suas vidas, votando, assim, as suas almas ao descanso eterno.
b) Ou a alma penada é, também, uma espécie em vias de extinção.

Tanto uma hipótese como a outra deveriam ser ponderadas para efeitos de investigação.