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17 de maio de 2011

POEMA / PUEMA

Poesia?
Escrever um poema?
Qualquer pessoa pode escrever um poema
não necessita ter rima
não está sujeito a tema
a forma a métrica
tudo tudo pode ser poesia
sem preocupações de estética
pode até ter erros de ortografia
justificados (depois) por liberdade puética.

15 de maio de 2011

NIVEL / DESNIVEL

Junto às bombas de gasolina esperava que o meu carro fosse abastecido.

Há uma oficina de reparação de automóveis mesmo em frente, na cave do prédio, entrando pelo portão, onde o homem das bombas tem o seu apoio de retaguarda.

Chegou um carro, daqueles que os vendedores (e seus imitadores) designam por "topo de gama" e o condutor estacionou-o em cima do passeio, ao lado do portão da oficina. Saiu. Vestia fato-de-macaco azul. Dirigiu-se para o portão.

O indivíduo que estava a falar com o empregado das bombas chamou o condutor acabado de chegar:
- Então Zé, não metes o carro lá dentro?

O condutor não respondeu e entrou pelo portão.

O empregado das bombas esclareceu-o:
- O carro é dele.
- O quê??!! - e caminhou para o "topo de gama", observando, com espanto, o interior do mesmo. Depois, olhando para os presentes junto das bombas, comentou:
- Eh pá!! Não sabia que o Zé era um gajo com este nivel!!

13 de maio de 2011

JUST MOVIES

Que sorte têm os norte-americanos!

Quando os extra-terrestres ("aliens" para eles) visitam o Planeta Terra (ou seja, os E.U.A.), seja com boas ou más intenções, todos, TODOS eles falam inglês.

10 de maio de 2011

CITAÇÃO XV

" Órbita

(...)

Ah que se eu pudesse ressuscitá-los em mim, aos homens e às mulheres do meu país, como eu sei que eles são embora o neguem...
A carga de dor humana que Deus colocou às costas de cada criatura. As fomes, os sonhos podres e mortos, os cansaços.
E, não sei lá como, húmidos por dentro como miolo de pão ou torrão de açucar.
E calados. Fazendo segredo do que são e Deus sabe que são.
Não se vê nem se ouve. Lê-se-lhes nos olhos, na seriedade, na tristeza, todos os homens e mulheres do meu país crêem na fatalidade e na resignação como se crê na água e no sol, sem querer... É estranho mas é verdade...
(...)"

Raul de Carvalho
«Talvez Infância»

8 de maio de 2011

SENHORA DA SAÚDE

" Há festa na Mouraria
é o dia da Procissão
da Senhora da Saúde..."

(FOI HOJE!)

"...e até a Rosa Maria
da Rua do Capelão
parece que tem virtude.

Naquele bairro fadista
Calaram-se as guitarradas..."

(SE AINDA SE OUVEM... - às vezes... poucas.)

"...não se canta nesse dia
bem à tradição bairrista..."

(E NOS OUTROS DIAS? - nestes tempos de Mouraria habitada por africanos, indianos, chineses,paquistaneses...)

"Colchas ricas nas janelas..."

(QUASE NÃO SE VÊEM)

(...)

"...Passa a Virgem no andor
o povo ajoelha e reza
até a Rosa Maria"

(O POVO JÁ NÃO AJOELHA NEM REZA - abundam curiosos, mirones e turistas armados de máquinas de recolha de imagens)

" Como que petrificada
em fervorosa oração
é tal a sua atitude
que a Rosa já desfolhada
da Rua do Capelão
parece que tem virtude".

(PARECIA OU TERIA MESMO VIRTUDE?)

= QUE VIVA O FADO, reflectindo (também) tradições, comportamentos, conceitos e preconceitos de outros tempos! =

6 de maio de 2011

CITAÇÃO XIV

"SABER VIVER É VENDER A ALMA AO DIABO

(...)

Les portugueux
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...

Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!

+

Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim..."

Alexandre O'Neill
«Abandono Vigiado»

4 de maio de 2011

CITAÇÃO XIII

"Harmónium

(...)

Pois não querem lá ver que, naquele instante, a linha, a casa térrea, o vulto da ponte, os sinais dos eucaliptos, a voz do Augusto, a gritar ao macho, a do José Lúcio, a chamar os filhos, e até a Estrada de Santiago que além nascendo está no céu - lhe parecem, como as pessoas, as mesmas de carne e osso - e com tanta coisa dentro d'alma..."

Raul de Carvalho
«Talvez infância»

1 de maio de 2011

COMUNIC@ÇÃO III

Cada pessoa é um mundo
e uma ilha
mais fácil é ficar do que partir,
mas tanto é o mundo para descobrir!

A palavra é o instrumento,
o gesto o jeito de a pegar.
A postura e o balanço do corpo
tentam o equilíbrio da palavra
que é podão, martelo,
cinzel, moldura, fôrma,
ideia feita coisa, feita ser
entre o "ser" e o "querer dizer".

29 de abril de 2011

FOI

Tenho saudades da infância, da tenra idade, das recordações ténues, esfumadas do grande mundo que estava próximo - os rostos, os gatos, a casa, a rua (que era ENORME...), a igreja, a praça.
Tudo era simples, singelo, mas GRANDE. Era o TUDO, um tudo ABSOLUTO.
O resto era o LONGE, muito distante, muito confuso, mas... para ser descoberto. Pouco a pouco. Sem pressa. Havia (então) muito tempo.
Agora tudo é pequeno. Pouco o desconhecido. Ou parece.

Além disso, nesse tempo ainda não tinha morrido ninguém.
E não havia crises.

27 de abril de 2011

CITAÇÃO XII

" JOGO


Depositada no fundo há a poeira
Uma pedra de dor em cada mão

Uma águia que voa
tornando a clareira
qualquer coisa de breve e de rasgão

Desembainhada a espada
a dizer a morte
Ou o lince correndo de raspão

Fica o sossego de se jogar a sorte
A vida, não."

Maria Teresa Horta
«DESTINO»