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19 de dezembro de 2011

CONTO de... NATAL

Tarde a anoitecer, em período de campanha de Natal.
Ao mesmo tempo que vestia o sobretudo, acercou-se da porta entreaberta:
- Então, Boas Festas e Feliz Natal.
- O quê?! Já vai embora?!
- Agora, só no dia 2 de Janeiro.
- Como foi que conseguiu isso do chefe?
- Olha, querida: problemas com os velhotes, que estão lá para cima.
- Então, Boas Festas, também, sr. Gonçalves.

Saiu. Neste ano não brilhavam, na rua, tão intensamente as lantejoulas eléctricas como nos anteriores Natais da cidade grande. Caminhou pela rua, sobrecenho franzido, preocupado, com o rosto a ser atingido, alternadamente, pelas poucas luzes de várias cores, o que lhe conferia um aspecto carnavalesco, patético. Entrou numa rua secundária, onde parqueara o carro. Havia mais serenidade e menos luz. Aqui, o pequeno comércio, que ainda não fechou portas, sobrevive com mais dificuldade e não tem proventos para mandar instalar arcos iluminados ou transfigurar as árvores com flostrias eléctricas que "aquecem" corações, procurando fazer subir o volume das vendas.
Aproximou-se do carro e, ainda longe, pressionou o botão da chave para abrir as portas. As súbitas luzes do automóvel, brilhando em pisca-pisca, assustaram um vulto no vão da escada de um prédio próximo, que serenou ao ver que era um homem que se encaminhava para o seu carro. Enquanto apertava o cinto de segurança, o homem olhou pelo retrovisor e viu que era uma mulher de meia idade, vestida com um casacão escuro e velho e com um gorro de lã na cabeça. Estava a esquadrinhar o interior de um contentor de lixo, que já transbordava.
O homem continuou a observar pelo espelho. Agora, a mulher procurava ansiosamente, com ambas as mãos, quase fazendo cair o caixote.
Procurou uma moeda nos bolsos do casaco. Hesitou. Puxou a carteira do bolso interior e retirou uma nota de cinco euros. Hesitou entre a moeda e a nota. Decidiu pela moeda. Abriu a porta do carro. Quando colocava o pé esquerdo no chão, verificou que a mulher vertera totalmente o conteúdo do contentor de lixo nos degraus da entrada do prédio e, agora, esgaravatava, espalhando o lixo em volta. Aproximou-se. Ela olhou-o receosa, levantou-se e fez menção de fugir. O homem estendeu para ela a mão direita, segurando a moeda entre o indicador e o polegar. Ela ficou hirta, olhando-o nos olhos. Ele levantou mais a mão estendida, colocando-a à altura do peito dela. Ela olhou a mão, olhou o rosto do homem, pegou na moeda e meteu-a num bolso. Nada disse e ficou a olhar o chão.
Enquanto regressava ao carro, olhou o lixo espalhado nas escadas. Ao apertar o cinto de segurança olhou pelo retrovisor, certo de que a mulher teria ido embora. Não, continuava a revolver o lixo, ansiosamente.
Pôs o motor em marcha, continuando a observá-la, com estranheza. Num repente, ela levantou-se segurando e limpando uma pequena caixa de cartão azul, onde se viam impressas as estrelas douradas da União Europeia. Então, a correr, a mulher desapareceu por detrás da esquina do prédio.
O homem ficou absorto, mãos fixas no volante, com o carro a deslizar suavemente pela rua. Acordou assustado com o som da buzina de um carro atrás. Antes de acelerar, olhou pelo retrovisor. Era um carro grande, potente, talvez de marca alemã.

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